Enunciação do Discurso
- Lógica e Dialética -
Sérgio Biagi Gregório
1. DISCURSO
Discurso - do latim discursu(m) - significa ação de correr por ou para várias partes. O termo comporta polivalência de sentido. Em oratória, designa a elocução que visa comover e persuadir; na esfera dos estudos lingüísticos, representa a "sucessão coordenada de frases"; em trabalhos de cunho científico, assume a denotação de "tratado", "dissertação", como, por exemplo, o Discurso do Método de Descartes; em filosofia, distingue-se o teor "discursivo" do "intuitivo".
A estrutura do discurso fundamenta-se no exórdio, na argumentação e na peroração. Embora tenhamos muitas técnicas para bem iniciar e terminar uma alocução, não resta dúvida que a argumentação é sua trave mestra. Esta é a parte em que o indivíduo mostra o seu conhecimento, a profundidade de seu pensamento. Para que haja comoção e persuasão, os princípios elaborados devem ser lógicos e coerentes.
Expressamo-nos através da palavra pensada, falada ou escrita. A sonoridade da voz e a dicção perfeita auxiliam a propagação de nosso pensamento, porém o que realmente conta é a essência daquilo que queremos transmitir. Voz adocicada e gestos delicados podem, muitas vezes, encobrir o verdadeiro caráter de um indivíduo. Contudo, se nos habituarmos a olhar criticamente, teremos condições de separar o joio do trigo.
Operações intermediárias encadeadas caracterizam o adjetivo "discursivo" oposto a "intuitivo". Urge reconhecer que a descoberta nas ciências e nas artes não segue uma seqüência de operações elementares parciais e sucessivas. Ela, muitas vezes, vem abruptamente. A ordenação das idéias surge "a posteriori" como elemento para tornar claro aquilo que se apreendeu de modo vago e obscuro.
O "discurso do homem" é a manifestação da sua personalidade. Melhorando o teor de nossos argumentos, mudaremos o conceito que os outros formam de nós. Leitura metódica, estudo constante e reflexão freqüente auxiliam sobremaneira a aquisição de novos valores da vida. Sem esforço perseverante da vontade, nada de útil conseguiremos amealhar em prol de nosso passivo intelectual.
Escolhamos com critério os alimentos material e espiritual, a fim de que o nosso "discurso" seja repleto de força, determinação e otimismo.
Fonte de Consulta
TRINGALE, D. Introdução à Retórica (a Retórica como Crítica Literária). São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1988.
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2. ENUNCIAÇÃO
Ao enunciar um discurso, o orador deve se preocupar tanto com
o conteúdo a ser transmitido quanto com a sua postura física e emocional. O
discurso deve tender à universalidade que, para atingir o seu fim, deve apagar
as marcas da particularidade, na qual está inserido o enunciador. Embora haja
outros tipos de enunciador, como o de identificação e o singularizado, o
enunciador universal é o que deve prevalecer.
Em se tratando do enunciador universal, o uso da terceira
pessoa é a mais aconselhável. E mesmo que o orador use a primeira pessoa (eu), o
teor da mensagem deve caminhar para o universal. Opiniões são opiniões e não
refletem a verdade dos fatos. Em Espiritismo, que já tem um corpo doutrinário
estabelecido, o "eu acho", o "eu penso" e o "eu creio" deveriam ser rechaçados,
e usados somente como força de expressão, pois a convicção doutrinária
oferece-nos elementos substanciais para afirmações mais concretas.
Enunciação pressupõe destinação. O destinatário também tem
que ser universal. Não é recomendável que o orador dirija-se a uma pessoa em
particular. É possível que, durante a sua exposição, separe pessoas e grupos,
mas que fique apenas no campo do exemplo. A universalidade significa um
conhecimento abrangente, um conhecimento que tende para a verdade, um
conhecimento que capte os princípios fundamentais de uma ciência, de uma
filosofia, de uma religião.
O enunciador veio para enunciar tal qual o semeador veio para
semear. As palavras devem captar a essência do que se pretende transmitir. Tudo,
porém, deve passar pelo crivo da razão e da lógica. Uma peça oratória confusa,
cheia de impressões vazias, podem mais atrapalhar do que ajudar na divulgação de
uma ideia, de uma doutrina. Nesse caso, um estudo mais aprofundado do tema é o
recomendável.
A lei da expectativa determina que o principal requisito para
que determinadas coisas aconteçam é acreditar que elas vão acontecer. Nesse
caso, o enunciador, ao preparar o seu discurso, deve se preocupar e até auxiliar
na formação das expectativas do público que vai ouvi-lo. Não adianta apenas a
razão, a lógica e a boa argumentação; para atrair, é preciso agradar. Este é o
segredo daqueles que falam em público e conseguem permanecer por longos e longos
anos arrebatando as platéias. Há oradores tão eloqüentes que conseguem até
arrancar lágrimas de seus ouvintes. A divulgação dos princípios doutrinários do
Espiritismo não precisa chegar a esse ponto, mas um pouco de emoção é bem-vinda.
O enunciador deve tender sempre para o universal, para o
racional, para a verdade dos fatos, sem esquecer o emocional. Somente assim
conseguirá passar a sua mensagem com mestria.
3. LÓGICA E DIALÉTICA
A filosofia tem o seu universo, ou
seja, o "universo do discurso". É uma argumentação de idéias. Há sempre um
perguntar. Não se pergunta por perguntar, mas para obter uma resposta. Não
qualquer resposta, porém uma resposta que aclare e explique. A insatisfação da
resposta gera novas perguntas, de tal modo que se amplie a visão do tema
estudado. Em linguagem mais simples: é um aprofundamento do assunto tratado.
O orador deve ser apto para falar
sobre qualquer assunto e em qualquer lugar. Para tanto, deve ter em mente as
noções de lógica e de dialética. A lógica é a condução correta do
pensamento; a dialética, na boa visão de Hegel, é o diálogo dos opostos.
Quer dizer, à toda afirmação corresponde uma contradição. Observe que geralmente
aprendemos mais pelos erros do que pelos acertos, tomamos mais consciência do
bem através do mal do que pelo próprio bem.
O fato de haver pontos de vista
opostos aos nossos não deve nos intimidar. Muito pelo contrário, devemos, a cada
passo, estimular ainda mais a confiança em nós mesmos. Somos mais capazes do que
imaginamos. A partir do momento que soubermos fazer nexo com os fatos e com os
acontecimentos, seremos capazes também de discutir sobre qualquer assunto. Há,
contudo, uma providência a tomar, ou seja, verificar se tudo o que tencionamos
saber faz realmente parte de nossa programação de vida.
O estudo da lógica,
consistência do bem pensar, e a dialética, o elo de ligação entre a
refutação e a afirmação, encaminham o nosso pensamento para a vivência plena das
experiências. Esse modo de interpretar o real – o mundo que nos cerca,
municia-nos de uma ferramenta valiosa para a construção do nosso próprio
discurso, ou seja, um discurso elaborado a partir de nós mesmos, de nossas
limitações e potencialidades, no sentido de tudo expressarmos com as nossas
palavras e o nosso modo de ser.
A contradição, a dúvida e o
questionamento ajudam sobremaneira a veiculação do nosso pensamento. Contudo, ao
transmitirmos as nossas idéias, convém disciplinarmos as palavras para que estas
não causem confusão e insegurança naqueles que nos ouvem. Faltando-nos a atenção
e confiança do público, as nossas palavras caem no vazio. Por isso, o esforço
constante no trato com a palavra, tornando-a sempre mais fluida, mais dócil e
mais fácil de ser entendida.
Não nos preocupemos com a pouca
repercussão de nossos discursos. Importa que a semente seja bem semeada, pois no
seu devido tempo ela dará os seus frutos. A função do semeador é semear e nada
mais.
São Paulo, maio de 2006
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