Escritório Ambulante
Sérgio Biagi Gregório
Em qualquer
lugar que estivermos – fila do ônibus, caixa do banco ou esperando em um
consultório médico – poderemos fazer o nosso escritório. As conversações, os
comentários e as críticas das pessoas presentes não devem nos desviar do nosso
foco, da nossa concentração, dos nossos objetivos. Sendo assim, não há motivo
para a exasperação, para a reclamação, para a impaciência. Se deixarmos a nossa
mente livre desses embaraços, as idéias mais nobres, com certeza,
visitar-nos-ão. Basta apenas que as registremos num bloco de notas ou folhas
esparsas.
“O tempo perdido não volta mais”, diz o anexim. Se, hoje, o usarmos com
querelas, reclamações, desgostos, ele nos fará falta amanhã. Por quê? As
reclamações roubam-nos o tempo que poderia ser mais bem aproveitado. E como há
uma lei universal de causa e efeito, o hábito da reclamação vai criando em nós
uma espécie de segunda natureza, e, sem o percebemos, estaremos sempre
reclamando por qualquer coisa e não avançamos em nosso progresso material e
espiritual. Ainda: será que a reclamação resolve o problema? Problemas pedem
solução e não reclamação.
A televisão é consumidora de tempo. Quantas coisas que ali vemos e não temos
necessidade alguma de vê-las. As novelas, por exemplo, comunicam um discurso
voltado para as relações interpessoais, em que o marido de uma procura mulher do
outro, e vice-versa. Devemos respeitar o trabalho dos atores, mas o que ganhamos
assistindo-os diuturnamente? Uma boa pergunta: que outras coisas poderíamos
estar fazendo? Qual é o uso alternativo do tempo da novela? Pode-se escrever,
compor uma música, anotar dados, visitar uma pessoa doente etc.
Suponha que você faça uma visita aos Estados Unidos. Estando lá, você pode
comandar diversas atividades feitas aqui no Brasil. Com os recursos da
informática, pode comunicar com os familiares, entrar na conta bancária, fazer
transferência de dinheiro, ver saldo. Pode também usar uma webcam em
que além de ouvir os seus parentes pode também vê-los. Pode também participar de
uma teleconferência. Os recursos tecnológicos são bastante amplos. Tudo isso,
porém, tem algo por detrás: a idéia, o pensamento e o uso racional do tempo.
O escritório ambulante serve tanto para as coisas boas como para as coisas más.
Imagina que alguém que tenha uma mente voltada para o mal receba todos esses
recursos. Ele nada mais fará do que expressar a sua maneira de ser, que é a
prática de atos imorais. Observe o que acontece nesse mundo digital. Um querendo
aplicar o trote do seqüestro, outro querendo extorquir pessoas analfabetas,
outra ainda ampliando a sexualidade desregrada entre as crianças.
Façamos o nosso escritório ambulante, mas que seja para avançar o nosso espírito
imortal. O que adianta ganharmos o mundo todo e perdermos a nossa alma? Eis a
questão fundamental, a questão central.
São Paulo, 09/03/2007
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