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Mito-Logos

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. O Mito: 4.1. “Mitos com Criação” e “Mitos sem Criação”; 4.2. O Sentido Figurado do Mito; 4.3. Mito e Subconsciente. 5. A Razão: 5.1. Enquanto Faculdade; 5.2. Enquanto Objeto de Conhecimento; 5.3. A Razão não Cria. 6. O Mito e o Logos: 6.1. Evolução Linear do Mito à Razão; 6.2. Fronteira entre o Mito e o Logos; 6.3. O Mito-Logos do Cristianismo. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O tema mito-logos sugere-nos algumas questões: qual o significado de mito? E de logos? Logos é sinônimo de razão? Como relacionar mito e logos (razão)? O racionalista age sempre pela razão? Qual a influência do emocional, do fantasioso e do quimérico em nossas atuações diárias?   

2. CONCEITO

Mito. A palavra mito tem um sentido próprio e um sentido vulgar. Vulgarmente, a sua noção está associada à idéia de alucinação, delírio, fantasia difícil de se realizar. Propriamente falando, a dimensão mítica do ser humano está vinculada à construção de sentido, sentido este que procura uma explicação para as suas necessidades vitais. Uma dessas necessidades refere-se à criação do mundo e dos seres humanos.

Logos. Nome atribuído a Jesus Cristo, peculiar ao Evangelho de João. Deus considerado como razão, a fonte das ideias na filosofia antiga, e em particular entre os estóicos, como criador que penetra todas as coisas. Verbo divino. Para os propósitos de nosso estudo, logos significa simplesmente razão.

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Os mitos nascem pelo medo ao desconhecido. O ser humano, não sabendo explicar a origem da vida e do mundo, cria o mito. Este lhe dá tranqüilidade à desordem interna. O mito foi a primeira forma de acesso ao conhecimento. Somente depois é que veio a razão.

Pode-se dizer que o mito fundamenta-se na imaginação; a razão, na explicação racional. Há dois mil anos na Grécia antiga, o ser humano começou a questionar o mundo externo, não pela via mítica, mas pela via da razão, pela explicação racional das coisas.

Na antiguidade, o nascimento da filosofia – que dava ênfase ao logos – tinha por objetivo desconstruir a visão mítica – fantasiosa – do mundo. O dualismo se fez presente. Assim sendo, o mito é atraso, a filosofia traz o progresso; o mito é treva, a filosofia é luz; o mito é obscuro, a filosofia é clara; o mito é a ignorância, a filosofia o saber; o mito é imobilismo, a filosofia representa o progresso histórico; o mito é simbologia, a filosofia constrói argumentos.

A verdade, porém, é que há uma (co) implicação mito-logos. O ser humano é um misto de fé e de razão, de imaginário e de racional. Se dermos muita atenção ao sentimento, prejudicaremos a razão; se dermos muita atenção à razão, poderemos cair na mesma armadilha em que caiu Descartes, ao afirmar que é pela razão que conhecemos a Deus. O pensamento correto seria: somente depois de sentirmos Deus dentro de nós é que teremos condições de analisá-Lo à luz da razão, e não o contrário. Antes de ser racional, o ser humano é afetivo. 

4. O MITO

4.1. “MITOS COM CRIAÇÃO” E “MITOS SEM CRIAÇÃO”

Os mitos podem ser divididos em “mitos com Criação” e “mitos sem Criação”. Nos “mitos com Criação”, admite-se o surgimento do Universo num tempo zero. Nesse caso, o Universo pode ter sido criado por Deus, emergido do Vazio absoluto, ou surgido da tensão entre a Ordem e o Caos. Exemplo: a criação bíblica, descrita em Gênesis, 1, 1 a 5. Nos “mitos sem Criação”, não se admite um tempo zero. Nesse caso, o Universo existe e existirá para toda a eternidade ou o Universo será continuamente criado e destruído, em um ciclo que se repete para sempre. Exemplo: o Universo pulsante do hinduísmo, no qual a Criação surge e ressurge ciclicamente através da dança do deus Xiva.

4.2. O SENTIDO FIGURADO DO MITO

O mito adquiriu ao longo do tempo e, mais precisamente na vida hodierna, um sentido figurado, ou seja, evoca a narração fabulosa e fictícia, contrária à verdade.  Equivale a engano, falsidade. Essa interpretação corresponde a uma mentalidade racionalista, para qual somente a razão é capaz de expressar a verdade. Alguns exemplos: o mito do progresso ininterrupto, o mito marxista da vitória dos oprimidos, o mito do socialismo da cidade ideal, o mito do super-homem com a sua vitória sobre o espaço e o tempo, o mito da raça pura etc.

4.3. MITO E SUBCONSCIENTE

Os mitos estão de tal forma arraigados em nosso subconsciente que, qualquer esforço para expulsá-los, acaba incorrendo em novas formas míticas. Atraímos para nós o que combatemos. Façamos uma analogia com o professor de português, que comete os mesmos erros que combate nos outros. Embora haja enormes dificuldades para suplantar o mito, o trabalho – passar do mito à razão – iniciado pelos gregos, há 2.500 anos, deve ser enfatizado. Estejamos sempre atentos neste empreendimento. 

5. A RAZÃO

5.1. ENQUANTO FACULDADE

A razão é uma faculdade de raciocinar discursivamente, de combinar conceitos e proposições. Para Descartes, é a faculdade de “bem julgar”, ou seja, de discernir o bem do mal, o verdadeiro do falso. Conhecimento natural enquanto oposto ao conhecimento revelado, objeto da fé. Sistema de princípios a priori cuja verdade não depende da experiência. Faculdade de conhecer diretamente o real e o absoluto, por oposição àquilo que é aparente ou acidental. (Lalande, 1993)

5.2. ENQUANTO OBJETO DE CONHECIMENTO

Princípio de explicação, o que dá conta de um efeito. É a relação entre causa e efeito, o porquê dessa ligação. Seu sentido original está ligado à expressão “livro da razão”, em que se registram de um lado as receitas e do outro as despesas, para depois dar conta. Razão é aquilo que permite dar conta. Em sentido mais amplo, razão seria a atividade do espírito, que se fundamenta: na especulação, na sistematização do conhecimento e na ordem prática, a sistematização da conduta. (Lalande, 1993)

5.3. A RAZÃO NÃO CRIA

Fundada na intuição intelectual generalizadora, a razão de per si não cria; ela é sintetizadora. Falta-lhe, assim, o papel poiético, o papel criador. Nesse sentido, é vicioso o pensamento racionalista que parte de um conhecimento racional aceito prioristicamente. Por outro lado, é fundamental o papel da razão que atua a posteriori, classificando, ordenando, condensando os dados da realidade. (Santos, 1966)

6. O MITO E O LOGOS

6.1. EVOLUÇÃO LINEAR DO MITO À RAZÃO

A tese da evolução linear do mito à razão não só é historicamente inexata como também não consegue explicar certos fenômenos culturais complexos. No caso extremo, o mito é rebaixado a uma fábula sem valor. É preciso ponderar sobre a dialética mytho/logos, pois já se afirmou que o homem é um ser mítico. Quer dizer, trazemos jungidos ao nosso psiquismo os condicionamentos das diversas narrativas fantasiosas e dos feitos das divindades do politeísmo.

6.2. FRONTEIRA ENTRE O MITO E O LOGOS

A fronteira entre o mytho e o logos não é percebida com facilidade. Nesse sentido, a astrologia e as demais pseudociências do universo acabaram caindo no mito que combatiam. Vindas para desmoronar o sacrifício das religiões oficiais, terminam criando o cosmo como um grande Anthropos, um homem cuja inteligência reside no movimento eterno e harmônico das esferas celestes, cujos olhos correspondem ao Sol e à Lua e a cujos pés jaz a matéria, num jogo sutil de correspondências regido por um único tema que varia até o infinito. (Enciclopédia Einaudi)

6.3. O MITO-LOGOS DO CRISTIANISMO

O mytho/logos do cristianismo primitivo apresenta uma novidade: o logos se divinizou e ao mesmo tempo se personalizou a ponto de coincidir com a própria pessoa do fundador. Observe que o mito da Trindade provindo das grandes religiões da Antigüidade – como vemos na trindade egípcia formada por Osíris, Ísis e Horus – deu à Igreja a possibilidade de incluir o Cristo na Mitologia Cristã como a segunda pessoa de Deus, de maneira que a Igreja, fundada pelo Cristo segundo a interpretação católico-romana, podia se apresentar como instituição divina do próprio Deus em pessoa.  (Enciclopédia Einaudi)

7. CONCLUSÃO

Transformemos a simbologia do mito em uma explicação racional. Vejamos o mito da criação bíblica, em que Deus, do pó da terra, fez o primeiro homem, Adão. Depois de moldá-lo, soprou-lhes a narina e deu-lhe vida. Explicação: o húmus da terra recebeu o sopro divino e se tornou homo. Em outros termos, a matéria (húmus) necessita do sopro (Espírito) para ter vida. A Doutrina Espírita acrescenta o Perispírito, elemento semimaterial próprio para a união entre Espírito e Matéria.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

GIL, F. (Editor). Enciclopedia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional, 1985-1991.

LALANDE, A. Vocabulário Técnico e Crítico de Filosofia. Tradução por Fátima Sá Correia et al. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965.

São Paulo, junho de 2010 

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por Sérgio Biagi Gregório




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